A Construção da Lepra em Goiás: Contágio e isolamento (1890-1943)

  • Leicy Francisca da Silva

Resumo

Nesse artigo, apresentamos uma análise do processo de construção da lepra em Goiás a partir da observação dos enunciados dos envolvidos na elaboração das políticas sanitárias goianas, no período compreendido entre 1890 e 1943. Esse recorte temporal deve-se ao fato de pensarmos a constituição localmente de um discurso construtor da enfermidade anterior à elaboração do chamado tripé institucional de controle da moléstia. Nesse período, são elaborados argumentos justificando a necessidade de isolamento dos atingidos para a proteção dos sãos. Tais assertivas relevavam a necessidade do tripé institucional formado pelo leprosário (para o isolamento dos enfermos), o preventório (para afastamento e assistência dos filhos de doentes isolados) e os dispensários (responsáveis pelo acompanhamento dos que tinham tido contato próximo com doentes, os chamados comunicantes). O problema central que direciona a pesquisa é pensar qual o papel central dos estabelecimentos criados anteriormente ao tripé de ataque à lepra na definição das políticas de assistência aos doentes no estado? Como os discursos produzidos concomitantemente com a constituição desses estabelecimentos foram competentes para a transformação da enfermidade relacionando-a diretamente ao risco do contágio e à necessidade do isolamento dos doentes?Palavras chave: História; Saúde e Doença; Goiás; Lepra/Hanseníase.

Biografia do Autor

Leicy Francisca da Silva
Doutora em História pela Universidade Federal de Goiás. Docente na Universidade Estadual de Goiás, Brasil.

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Publicado
2015-07-31
Seção
Dossiê - História, Saúde e Meio Ambiente