Palavra & Território: Escrita alfabética e a colonização portuguesa da Mata Atlântica

  • Diogo de Carvalho Cabral

Resumo

Juntamente com as armas de fogo, os animais domésticos, os micróbios e o aparato estatal, o alfabeto integrou o dispositivo biotécnico que os europeus renascentistas usaram para conquistar, espoliar e governar os povos ameríndios da Mata Atlântica, a partir do século XVI. Como em outras partes do Novo Mundo, a escrita foi fundamental para a apropriação retalhada dos ecossistemas nativos, incluindo suas populações humanas (privatização fundiária, escravização etc.). Não obstante, o alfabetismo acabou se adaptando aos territórios americanos. Uma das expressões mais poderosas dessa adaptação foi o processo por meio do qual o alfabeto, a princípio uma técnica de subjugação, acabou se tornando um instrumento de resistência ameríndia ao controle colonial...Palavras chave: Escrita Alfabética; Alfabetismo; Colonização Portuguesa; Mata Atlântica; Período Colonial.

Biografia do Autor

Diogo de Carvalho Cabral
Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em População, Território e Estatísticas Públicas (Escola Nacional de Ciências Estatísticas/IBGE), Brasil.

Referências

Abram D 1997. The spell of the sensuous: perception and language in a more-than-human world. Vintage Books, New York.
Abreu MA 2004. European conquest, Indian subjection and the conflicts of colonization: Brazil in the early modern era. GeoJournal 60: 365-73.
AHU – Arquivo Histórico Ultramarino, Regimento que levou Tomé de Souza governador do Brasil, Almerim, 17/12/1548, códice 112, fls. 1-9.
Almeida MRC 2014. Catequese, aldeamentos e missionação. In J Fragoso e MF Gouvêa, O Brasil colonial, vol.1 (1443-1580). Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, p. 435-78.
Anchieta J 1595. Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil. Antonio de Mariz, Coimbra.
Asensio E 1960. La lengua compañera del imperio: historia de una idea de Nebrija em España y Portugal. Revista de Filología Española 43: 399-413.
Baines SG 2001. As sociedades indígenas no Brasil e a conquista das Américas. Revista do CEAM (UnB) 1: 73-9.
Bosi A 1992. Colônia, culto e cultura. In Dialética da colonização, 4a ed. Cia. das Letras, São Paulo, p. 11-63.
Cabral DC 2014a. ‘O Brasil é um grande formigueiro’: território, ecologia e a história ambiental da América portuguesa – Parte 1. Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña 3: 467-89.
Cabral DC 2014b. Na presença da floresta: Mata Atlântica e história colonial. Garamond/Faperj, Rio de Janeiro.
Crosby AW 2011. Imperialismo ecológico: a expansão biológica da Europa, 900-1900. Cia. das Letras, São Paulo.
Diamond J 2012. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas, 14ª ed. Record, Rio de Janeiro.
Fernandes F 2010. Antecedentes indígenas: organização social das tribos tupis. In SB Holanda, História geral da civilização brasileira, t.1, v.1, 17ª ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, p. 83-99.
Foucault M 1991. La gubernamentalidad. In R. Castel, J. Donzelot, M. Foucault, J-P. de Gaudemar, C. Grignon e F. Muel, Espacios de poder. La Piqueta, Madrid, p. 9-26.
Galeano E 2013. As veias abertas da América Latina. L&PM, Porto Alegre.
Gândavo PM 2004. História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, 2ª ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro.
Greenblatt, SJ 1990. Learning to curse: aspects of linguistic colonialism in the sixteenth century. In Learning to curse: essays in early modern culture. Routledge, New York/London, p. 16-39.
Hornborg A 1999. Money and the semiotics of ecosystem dissolution. Journal of Material Culture 4: 143-62.
Leitão ARB 2014. Sentidos da instrução dos ameríndios em língua portuguesa (séculos XVI a XVIII). História: Questões & Debates 60: 85-106.
Leite Y 2000. A gramática de Anchieta – 500 anos de língua Tupi. Ciência Hoje 28: 42-7.
Léry J 1961. Viagem à terra do Brasil. Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro.
Lévi-Strauss C 1996. Tristes trópicos. Cia. das Letras, São Paulo.
Maestri M 1995. Os senhores do litoral: conquista portuguesa e agonia tupinambá no litoral brasileiro, 2ª ed. Editora da Universidade/UFRGS, Porto Alegre.
Martinez PH 2006. O sentido da devastação. In História ambiental no Brasil: pesquisa e ensino. Cortez, São Paulo, p. 56-81.
Marx K 1991. Formações econômicas pré-capitalistas, 6ª ed. Paz & Terra, São Paulo.
Melville EGK 2006. Land use and the transformation of the environment. In V Bulmer-Thomas, JH Coatsworth e RC Conde, The Cambridge economic history of Latin America, vol.1. Cambridge UP, Cambridge, p. 109-142.
Mignolo WD 2003. The darker side of the Renaissance: Literacy, territoriality, and colonization, 2nd ed. University of Michigan Press, Ann Arbor.
Neumann ES 2005. Práticas letradas Guarani: produção e usos da escrita indígena (séculos XVII e XVIII). Tese de doutoramento. PPGHIS/UFRJ, Rio de Janeiro.
Nóbrega M 1931. Cartas do Brasil: 1549-1560. Officina Industrial Graphica, Rio de Janeiro.
Rodrigues AD 1996. As línguas gerais sul-americanas. PAPIA 4: 6-18.
Rudge RT 1983. As sesmarias de Jacarepaguá. Livraria Kosmos, São Paulo.
Salvador FV 1918. História do Brasil, 1500-1627. Weiszflog Irmãos, São Paulo/Rio de Janeiro.
Santos M 1996. A natureza do espaço. Técnica e tempo, razão e emoção. Hucitec, São Paulo.
Saouza JOC 2002. O sistema econômico nas sociedades indígenas Guarani pré-coloniais. Horizontes Antropológicos 8: 211-53.
Sousa GS 1971. Tratado descritivo do Brasil em 1587, 4a ed. Cia. Ed. Nacional, São Paulo.
Stuckey P 2010. Being known by a birch tree: animist refigurings of Western epistemology. Journal for the Study of Religion, Nature and Culture 4: 182-205.
Todorov T 2003. A conquista da América: a questão do outro, 3ª ed. Martins Fontes, São Paulo.
Uzendoski MA 2012. Beyond orality: textuality, territory, and ontology among Amazonian peoples. Journal of Ethnographic Theory 2: 55-80.
Viveiros de Castro E 1998. Cosmological deixis and Amerindian perspectivism. Journal of the Royal Anthropological Institute 4: 469-488.
Viveiros de Castro E 2006. A floresta de cristal: notas sobre a ontologia dos espíritos amazônicos. Cadernos de Campo (São Paulo) 14-15: 319-338.
Welter SC 2012. Caracterização fitogeográfica da região de assentamento das reduções jesuítico-guaranis estabelecidas no atual território do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil (século XVII). Revista Brasileira de História & Ciências Sociais 4: 489-508.
Williams R 2000. Cultura, 2ª ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro.
Publicado
2015-07-31